Estou de acordo.
A ironia do conflito israelo-palestiniano é que a ideia de se criar o estado de Israel é oriunda de sectores socialistas e socias-democratas de fins do século XIX. Os sectores mais religiosos opunham-se à criação desse estado pois achavam que o regresso à Terra Santa só deveria acontecer quando o Messias chegasse.Seria depois um dos países mais capitalistas do mundo a apoiar este país, os E.U.A. São as voltas da História.
Hoje em dia, infelizmente parece-me que há um anti-semitismo de esquerda.
Há dias nas galerias do Parlamento pude ver pela tv que um dos manifestantes contra o desfecho do debate sobre a despenalização do aborto tinha o famoso lenço palestiniano. Por acaso este rapaz, bem como uma miúda que também o tinha nas manifestações do julgamento de Aveiro, imagina que num futuro estado palestiniano independente o aborto seja permitido? Acho que nesta questão palestiniano também há um efeito de "moda" e de mediatismo. Por exemplo, há uns anos atrás era o Tibete que estava na ordem do dia, enquanto que ninguém falava de Timor. Entretanto, já praticamente ninguém fala do Tibete.
Penso que devemos evitar todo o maniqueísmo quando abordamos este tema. Do género: os israelitas são os "maus" e os palestinianos os "maus (ou vice-versa).
Só a nível de curiosidade também queria dizer que o Estado de Israel está há anos luz na questão dos direitos das mulheres e dos LGBT. É para Israel que fogem homossexuais palestinianos, onde acabam muitas vezes por trabalhar na prostituição.
A Helena Matos escreveu no Público um artigo sobre esta questão do politicamente correcto nesta questão. Não foi este ano sábado foi no interior.
Acho que as águas devem ser separadas. Como digo. Mas não me parece que haja simetria entre os grupos em questão, por isso há maiores responsabilidades de uns do que outros. Agora anti-semitismo nem pensar. Já chega. E sim, completamente em relação aos assuntos de Direitos Humanos. De acordo.
Afixado por: Pagan em março 7, 2004 02:21 AMCom a devida ressalva às violações bárbaras de direitos humanos dos palestianos por parte do Governo de Israel.
Afixado por: Pagan em março 7, 2004 02:22 AMOlá Pagan... a tua casa anda muito vazia... Peço desculpa pelos meus erros de dactilografia, é que os dedos são mais lentos (e desastrados) que o meu pensamento.
Deixo aqui o tal artigo da Helena Matos (pelos vistos, persona non grata nos meios gays)
Quem Ouviu Falar de Souad?
Por HELENA MATOS
Sábado, 28 de Fevereiro de 2004
Poucos ouviram falar de Souad. Na verdade, Souad nem sequer existe. Souad é simplesmente o nome fictício duma mulher nascida na Cisjordânia. Apesar das reportagens diárias sobre os territórios palestinianos ocupados por Israel, é extraordinário que nunca nos interroguemos sobre o facto de raramente vermos reportagens sobre os palestinianos. Sobre a sua economia, as suas escolas, os seus hábitos. A sua vida. Vemos os filmes dos mártires, as imagens das mulheres chorosas no dia do funeral, as casas destruídas pelo exército israelita, o muro dividindo os territórios... mas mais nada - ou seja, salvo honrosas excepções, da vida dos palestinianos vemos o "making-off" dos atentados.
Tivesse Souad feito detonar um cinto com explosivos à cintura e todos a teríamos visto e ouvido, mas a história de Souad é outra. Aos 17 anos ela ficou grávida e para a sua família só havia uma saída: matá-la para salvarem a sua honra. O parente escolhido para a executar, um cunhado, regou-a com gasolina e pegou-lhe fogo. Algumas vizinhas não resistiram aos gritos de Souad e levaram-na para um hospital em Ramallah onde os serviços hospitalares não a trataram, mas simplesmente esperavam que morresse. O que não aconteceu, porque uma ONG propôs um estranho negócio à família de Souad que, entretanto, rondava o hospital para, de uma vez por todas, cumprir a sentença: eles faziam de conta que Souad morrera e eles deixavam Souad partir para a Europa. Assim, à hora a que Souad deixava a sua terra em direcção à Suíça, a sua família celebrava a sua morte e portanto a reposição da sua honra.
Este caso está longe de ser único. Sexta-feira, quando escrevo esta crónica, é notícia o assassinato, num hospital de Istambul, duma mulher condenada à morte pela sua família por ter tido um filho duma relação extramatrimonial. Guldunya Toren, assim se chamava esta jovem mulher, estava hospitalizada para ser tratada aos ferimentos sofridos há uma semana, quando os seus irmãos a tentaram assassinar em plena rua. Desta vez, os irmãos Irfan y Ferit Toren não se enganaram no alvo: entraram no hospital e atiraram à cabeça de Guldunya Toren.
Os crimes de honra são uma prática frequente em países como a Turquia, o Egipto, a Jordânia, o Paquistão, o Iémen ou nos territórios sob o controlo da Autoridade Palestiniana. Contudo, a cobertura informativa nestas regiões vive do "mártir do dia" contra os EUA e Israel. Por ironia, pode acontecer que algumas das mulheres das quais vemos grandes planos da cara a chorarem os filhos que se fizeram explodir também tenham chorado as filhas que desonraram a família. Mas sobre essas lágrimas ou sobre a ausência delas não existiram notícias. Tal como não existiram praticamente notícias sobre a recente greve dos jornalistas palestinianos contra as violências que sobre eles exercem os grupos terroristas. Nem sobre a execução sumária de palestinianos acusados de colaborarem com as forças israelitas.
Os jornalistas "aceitam ser manipulados, preferindo não fazer a sua própria investigação, para que se venda um produto que hoje se chama politicamente correcto" - declararam num lado oposto do mundo, Bertrand de la Grange, antigo correspondente do jornal "Le Monde" para o México e América Central, e Maité Rico, do jornal "El País", a propósito da morte do bispo guatemalteco Juan Gerardi.
Assassinado em 1998, o bispo Juan Gerardi tinha acabado de publicar um relatório, em que acusava o exército de ser o grande responsável pelos 150 mil mortos e 50 mil desaparecidos da guerra civil que lavrou na Guatemala entre 1960 e 1996. Assim, perante a sua morte tornou-se uma evidência que eram os militares os responsáveis pelo assassinato. Como convinha, três militares e um padre, apresentado como cúmplice dos mesmos militares, foram condenados pelo homicídio de Juan Gerardi. Contudo, os vilões deste caso estavam inocentes, como apuraram os jornalistas Bertrand de la Grange e Maité Rico. Dir-se-á que de condenados inocentes está cheia a América Latina. Infelizmente isso é certo. O que não era habitual é que sectores tidos como progressistas e organizações que lutaram pelos direitos humanos combatessem as investigações jornalísticas e preferissem que não se apurasse a verdade, sob o pretexto de que, neste caso, a verdade servia a extrema-direita.
É esta opção pela realidade conveniente denunciada por Bertrand de la Grange e Maité Rico que prevalece em muitos dos retratos que nos chegam do mundo e muito em particular do Médio Oriente. Denunciar a corrupção da Autoridade Palestiniana, o terror espalhado pelos grupos fundamentalistas, o hipotecar do futuro das novas gerações a um delírio religioso e a uma regressão no saber é inevitavelmente visto como uma distracção, uma beliscadura na verdade conveniente que, no caso, estabelece que dum lado temos o vilão Estado de Israel e do outro os oprimidos palestinianos e, por extensão, o mundo muçulmano.
Sendo inquestionável que os palestinianos têm direito a um Estado independente, sendo igualmente inquestionável que o Estado de Israel tem de ser responsabilizado por inúmeros atentados aos direitos dos palestinianos, não se podem colocar no mesmo prato da balança regimes e líderes democraticamente eleitos e regimes despóticos e grupos terroristas.
Da mesma forma que tenho a certeza que Israel não tem o direito de redesenhar as suas fronteiras com o dado adquirido de milhares de toneladas de betão, também penso que é criminoso exigir a um povo que, em nome da paz, se deixe matar.
Não faço a menor ideia se o muro é eficaz do ponto de vista defensivo - ignorância em que presumo não estar isolada, pese o tom de especialistas em defesa arvorado pelos seus detractores -, mas tenho a certeza que atrás do fatalismo com que se aceita, quase se exige, que os israelitas deixem entrar os terroristas no seu território há muito do velho anti-semitismo e do menos velho mas igualmente criminoso diletantismo das elites ocidentais, sempre dispostas a transformarem nas suas coqueluches quaisquer almas que gritem contra esse mesmo Ocidente. E como convém a todos os diletantes, quando as coqueluches os cansam e desiludem, esquecem-nas. Não falam delas porque isso os desgosta. África está hoje cheia de regimes despóticos, de genocídios inimagináveis, de crimes e dores para os quais já nem há palavras nem atenção perpetrados por líderes e movimentos aos quais este mesmo Ocidente chamou libertadores. Mas a verdade conveniente de há muito que deixou de se interessar pelo desfeito sonho africano. Tal como não nos fala do martírio de Souad.
http://jornal.publico.pt/publico/2004/02/28/EspacoPublico/O02.html